II Congresso Internacional de Educação para Surdos – Bilinguismo: Práticas e Perspectivas
Cultura Surda
A palestra de abertura do Congresso abordou a Cultura Surda, com Benjamin Bahan, da Gallaudet University (EUA), que atua na área de educação para surdos e contou sobre suas experiências em relação à evolução dessa cultura. O palestrante é surdo, filho de pai surdo e mãe surda oralizada.
Entre as décadas de 70 e 80, a cultura surda começou a ser discutida e o palestrante levantou reflexões sobre esta cultura e suas verdades. Segundo ele, a ideia de cultura e identidade é baseada na noção de diferença, como, por exemplo, quando pais ouvintes têm um filho surdo e vivenciam a dificuldade de criar a criança em uma cultura diferente. Nesse sentido, o bilinguismo é visto de forma positiva, porém, aceitar a “bicultura” é mais complicado. É importante estruturar essa dinâmica para que possa fazer sentido para as pessoas.
Educação bilíngue para surdos no Brasil – uma realidade
Para discutir questões importantes sobre a educação bilíngue no Brasil, foi formada uma mesa redonda, que ofereceu aos congressistas informações e reflexões sobre o tema.
Ronice Quadros, da Universidade Federal de Santa Catarina, destacou a ética e política em relação ao bilinguismo, seus conflitos e a necessidade de contatos e trocas entre surdos, intérpretes, ouvintes e demais pessoas envolvidas com a questão. Carina Rabello, da Escola Frei Pacífico e da Universidade Federal de Santa Catarina, falou sobre a avaliação da intervenção da linguagem na criança surda em uma abordagem bilíngue bimodal – aquisição da primeira língua e aprendizagem da segunda, como um tema polêmico.
Retomando os quatro pilares da educação, estabelecidos pela Unesco - aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser, Mara Lucia Massutti, do Instituto Federal de Santa Catarina, destacou que é necessário na política de educação para surdos uma arquitetura poético-pedagógica singular e coletiva e princípios pautados na arte, filosofia, ciência e religião. Marianne Stumpf, da Universidade Federal de Santa Catarina, falou de uma nova epistemologia na educação de surdos, a partir da revisão dos parâmetros, nos moldes de outras pedagogias. Para ela, os órgãos que trabalham com a educação precisam atuar em conjunto e os surdos também precisam estar nesses espaços, divulgando uma educação bilíngue.
A educação que desejamos
O Congresso contou com uma mesa redonda com o tema “A educação que desejamos”, que abordou a diversas experiências bem sucedidas na educação para surdos. Karin Hoyer, da The Finnish Association of the Deaf, falou sobre uma abordagem participativa para o desenvolvimento da educação para surdos em Kosovo, país muito pequeno, parte da ex-Iugoslávia, por meio de um projeto da Associação Finlandesa dos Surdos, que tem o objetivo de melhorar os direitos dessas pessoas, a partir do reconhecimento oficial e desenvolvimento da educação dos surdos. O trabalho é realizado desde 2003, com o financiamento do governo finlandês. Ressaltando o tema “Bilinguismo e Inclusão”, Robert Johnson, do Linguistics Department da Gallaudet University (EUA), destacou que o tipo de educação que se busca para crianças surdas é educação. Mas, para isso, é necessário que essas crianças possuam duas línguas, uma língua de sinais e a do país em que moram.
Claudia Akemi Nagura e Cristiano Assumpção Koyama falaram do trabalho desenvolvido pela Escola para Crianças Surdas Rio Branco, como uma escola de protagonismo, onde o uso da língua de sinais é essencial para fortalecer a cultura e o indivíduo, que tem desejo de aprender, de se desenvolver e de criar o próprio caminho.
Silvana Drago ressaltou o trabalho da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, na inclusão. Desde 2000, a matrícula tem evoluído muito, mas, em compensação, há uma diminuição de alunos surdos nas classes especiais. A palestrante destacou que as principais dificuldades são a aquisição tardia de libras, a organização do currículo, a formação de profissionais e o pouco apoio às famílias.
Língua de sinais e políticas públicas
Karin Hoyer, da The Finnish Association of the Deaf, explicou aspectos da educação para surdos na Finlândia, bem como questões políticas e contou detalhes do programa que desenvolveu, em setembro de 2010, junto com a Associação Finlandesa dos Surdos, para garantir a constituição, de 1995, que reconhecia os surdos como um grupo linguístico e cultural. Essa obrigação constitucional não era garantida o suficiente para que os direitos linguísticos fossem colocados em prática.
Educação bilíngue para os surdos na Austrália: teoria e prática
Cameron Miller contou sua experiência como professor na Escola Estadual Toowong, na Austrália, que não é uma escola especial, mas sim são salas de aulas, com crianças surdas e ouvintes, coordenadas por dois professores, um surdo e outro ouvinte, que, juntos, são responsáveis pelas atividades em Língua Australiana de Sinais (Auslan). Ambos os professores planejam em conjunto os trabalhos que serão desenvolvidos com os alunos, todos interagem e se comunicam.
Apresentações Orais e de Pôsteres
O Congresso foi, também, uma grande oportunidade de troca de conhecimentos entre os profissionais envolvidos, de todo o Brasil e de diversos países, que apresentaram trabalhos desenvolvidos, por meio de apresentações orais e de pôsteres, que somaram, cerca de 100 temas.